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| Considero-me
feliz por ter tido uma infância sem televisão
a cores, vídeo game e muito menos essa neurose
que acha que qualquer lugar que se vá pode
ser violento. Desse modo podia “bater uma
bolinha” num campo de várzea e sair a noite
pra jogar conversa de moleques fora, com os
amigos do bairro do Tatuapé, que ainda tinha
muitos campos de várzea. O hoje famoso e elegante
Jardim Anália Franco, era formado por chácaras
que produziam frutas e legumes. |
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Lembro-me bem que para comprar um jogo de camisa
do nosso time de futebol, fabricamos sabão, (, claro
com ajuda das mães).Receita : cozinhar gordura animal,
soda caustica e cinzas para “dar liga”. Vendíamos
os sabões, de casa em casa, e conseguimos comprar
um jogo de camisas para nossa “equipe”. Ah que saudades
de tempos alegres e ingênuos. Como disse Millor:
“ houve um tempo em que , ao anoitecer , as pessoas
sentavam em cadeiras na calçada e conversavam. Depois
botaram as cadeiras na frente da televisão , os
automóveis na calçada e nunca mais conversaram.
Aos nove anos mudei-me para o bairro do Paraíso.
Minha casa estava situada exatamente atrás do Tênis
Clube. Portanto” meu quintal” , por assim dizer,
era um clube com piscinas e quadras. Formei-me em
direito pela Universidade Mackenzie e milito, principalmente,
na área do direito civil. Anos depois de me formar
em direito, me formei em jornalismo pela FIAM. Escrevi
durante anos, sobre turismo, na revista Merc News,
de Santo André, ABC Paulista. Tenho várias cartas
publicadas na coluna Fórum dos Leitores do jornal
Estadão. Nunca tive como objetivo na vida ser rico
e/ou famoso. Sei que reúno todas as condições e
poderia, se quisesse, ter me destacado como profissional
de direito (sem falsa modéstia porque se modesto
fosse seria perfeito). Mais preferi verificar o
que o mundo me oferecia além de um renomado escritório
de advocacia e que me obrigaria a usar terno e gravata
todos os dias.
Alias desde sempre freqüentei o Fórum de S.Paulo
com calça jeans...desde que jeans era chamado de
calça rancheiro.
Fora da vida profissional às vezes me sinto como
um “estranho no ninho” porque nunca li, nem pretendo
ler, quaisquer dessas revistas vazias que mostram
as chamadas “celebridades”, até como respeito ao
sofrido povo deste país, cheio de desigualdades
e onde a miséria está por toda a parte. Como também
jamais assistir um capítulo de novelas alienadoras.
Funcionam como um vício, quase uma droga, que os
governos adoram porque o povo, absorto com as patéticas
e tediosas (pelo que ouço dizer) histórias, deixam
de pensar em sua própria realidade. Creio que a
vida é muito curta para se perder tempo com tolices
deste tipo. Para alguns ter uma vida “super” é ter
um carro de muitos milhares de dólares e milhões
aplicados no tal de “mercado”. Jóias, ações, dólares
e caríssimas roupas de grife, claro está. Realizar-se
criando projetos, é ficar cada vez mais rico, poderoso,
mais celebridade, sair em colunas sociais. Nada
contra. E se esta pessoa acha que ser bon vivant
é isto... que faça bom proveito. O problema é que,
normalmente, essa pessoa paga um preço caro por
ter chegado onde chegou. Não deixar seu trabalho
, sequer por uns poucos dias. Quando viaja não dá
para aproveitar e relaxar completamente. Precisa
ficar em constante contato com seu “império”.
Quando sai, mesmo na cidade onde mora, deve estar
acompanhado de seguranças . E qual a vantagem em
ser “celebridade” e não poder sequer jantar em um
restaurante, sem ser incomodado com os “admiradores”
e fãs” ou com medo de ser seqüestrado rondando sua
cabeça e de sua família? Como é bom ser mais um
no meio do povo e poder ter a vida que deseja. Não
pretendo fazer apologia do “dolce far niente” e
da indolência. Mas creio que basta ter o suficiente
para si mesmo, sua saúde e conforto e para suas
viagens, e deixar algo para seus descendentes deve
bastar. Isso tem um significado valioso: ser livre.
Qual o preço para ser livre? Não tem preço. Se me
presentearem com um celular (em sua maioria utilizado
desnecessariamente nesse mundo consumista) atiro
na primeira lata de lixo.
Famosos atores como Tom Cruise e John Travolta que
possuem milhões de dólares em suas contas bancárias
fazem parte de uma seita denominada Cientologia,
ainda pouco difundida no Brasil, mas que, basicamente
procura quase que a imortalidade, através de vários
estágios, sendo que para ultrapassar cada um destes
estágios se gasta uma verdadeira fortuna. Isso prova
que ser celebridade e rico não significa ser feliz.
Senão por que buscar algo fora daquilo que a pessoa
tem? E do simples ensinamento de qualquer religião:
não faça mal a ninguém e se puder fazer algo a outra
pessoa... faça. Esta é a minha religião e acho que
é isso o que prega o catolicismo.Sempre fui um esportista,
como afirmei “meu quintal” era um clube. Nunca fui
de noitadas e baladas e só bebo refrigerantes e
água mineral (nada contra quem bebe desde que não
“incomodem o vizinho” e não altere o relacionamento
familiar). Cigarros cheiram mal. Nos fins de semana
nada (ou quase nada) me tira de um saudável jogo
de tênis de “bater uma bolinha” no campo de futebol
society, (relembrando o passado distante ) acompanhado
de um mergulho numa piscina de águas transparentes.
Quanto as minhas viagens... andei, e pretendo ainda
andar, pelo mundo, de mochilas nas costas e com
muita “carona” (mais do que economia, uma forma
de conhecer o que pensa o povo daquele país ou região).
Algumas pessoas consideram essa prática perigosa,
mas como já viajei de monomotor no Kenia, pegar
carona não tem nada de mais. Depois, como dizem
os americanos, “shit happens” em qualquer lugar
e situação. Hotéis sem estrelas são suficientemente
bons para que eu descanse essa “carcaça decadente”.
Não sou contra hotéis de luxo até porque aproveitei
bem deles quando levei grupos de turistas pela Europa
e Oriente. O melhor quarto de hotel, do tipo standard
é, normalmente, reservado para o tour conductor.
Só que viajando sozinho não faz sentido pagar caro
um hotel. Às vezes troco esse “misere” por um navio
de luxo num cruzeiro pelo Caribe.
Após receber meu diploma de bacharel em direito
juntei o dinheiro que ganhara, trabalhando, ainda
nos tempos de estudante, como advogado dativo (se
o réu não tiver advogado, o Estado designa um para
defendê-lo no processo e ao final recebe honorários
de acordo com uma tabela pré estabelecida) e saí
por “mares nunca dantes navegados”. Alias a primeira
viagem foi numa terceira classe de um decadente
barco francês (o preço mais barato para se chegar
ao continente europeu), que navegou por mar bravio
e demorou quatro dias a mais que normalmente faria
no trecho Santos-Lisboa. O navio “jogava” tanto
que até os marinheiros enjoaram. Como estava acostumado
com pesca submarina, com pequenas lanchas que ficam
“ancoradas” junto às pedras, e que balançam o tempo
inteiro, não enjoei e era um dos pouco que faziam
as três refeições diárias. O navio afundou assim
que chegou a Europa. Como se nota minha vida de
viajante começou com aventuras.
Sou escorpião com ascendente em aries e tenho a
lua em sagitário. E segundo os astrólogos os assim
nascidos, isto é, lua ou o sol em sagitário, gostam
de viajar. Quanto ao horóscopo: talvez não saibam
que os indianos, ao colocarem anúncios nos jornais,
procurando por uma noiva para casamento, exigem
que sejam de determinado signo. Não chego a esse
ponto, até porque não pretendo casar novamente,
mas acredito em influencia dos astros em nosso temperamento
e personalidade (além , claro dos aspectos culturais
e genéticos).
Afinal a astrologia esta ai há séculos. Assim coloquei
meu diploma de bacharel numa gaveta e fui realizar
meu sonho: Viajar pelo mundo com pouco dinheiro
era simples: trabalhar... ou trabalhar. Por sorte
em Madrid comecei uma carreira de modelo. Creio
que um dos primeiros brasileiros a se aventurar
fora do Brasil nesta profissão. Nunca havia feito
uma foto no Brasil, mas em Madrid, conheci um brasileiro
que trabalhava em grande agência de publicidade
e que me convidou para algumas fotos. Mudei-me para
Barcelona, entrei para uma famosa agência de modelos
daquela cidade, onde trabalhei com certa regularidade.
Em Roma fiz uma fotonovela, mas não dei sorte no
cinema. Só um teste na Cinecittá, a Hollywood da
Itália. No Brasil fiz várias fotos e comerciais
para a televisão como modelo. Além de seis longas
metragens onde contracenei, entre outras atrizes,
com Vera Fischer em a Super- Fêmea. Desfilei numa
Fenit tendo como diretor do show o famoso Abelardo
Figueiredo. A bem da verdade, modelo, não pode ser
considerado uma profissão, mas um trabalho eventual.
Alias em Hollywood onde morei e trabalhei, ninguém
trabalha como garçon, todos são atores que trabalham
em restaurantes e aguardam a chamada do empresário
para trabalhar... como extras. Como acontece aqui
no Brasil... todas modelos são “top”. Até algumas
que fizeram uns poucos trabalhos e tiveram que amargar
hotéis de quinta categoria, esperando novas chamadas
do empresário...para fazer um casting (que no meu
tempo chamava-se “teste”) a fim de verificar se
a modelo serve para o comercial ou foto. Para a
sobrevivência do dia a dia trabalhei em fabricas,
como garçon e também limpei e escovei cavalos no
Bois de Boulogne, num “chiquérrimo”clube de hipismo.
Passei dois anos da Europa. E percebi, logo que
voltei ao nosso país, estava contaminado com o “vírus
da viagem”. Este vírus é incurável, de tempos em
tempos, agride violentamente e a sua “virulência”
só acalma com novas viagens para novos lugares...
ou os mesmos. Ah Paris, posso ver todos os meses
e continuar a te amar. Voltei ao Brasil e exerci,
(como ainda exerço), a profissão de advogado.
Em resumo, na Europa suei para ganhar meu pão, passei
fome, perdi alguns quilos, tive que me humilhar
para manter um trabalho em terras estrangeiras,
mas aproveitei muito (e pretendo aproveitar ainda
mais). Considero que virei o mundo de cabeça para
baixo. Norte-Sul, Leste-Oeste. Posso afirmar que
visitei e revisitei todos os países que queria conhecer...
ao redor de uns cem.
Das Ilhas Mauricio, na Costa africana, ao Camdodja,
Sudeste Asiatico. De Jericoacara, Ceará, a Koh Samui
e Phuket na Thailandia. Da linda Puerto Angel, Oaxaca,
México, ao incrivelmente belo arquipélago das Seychelles,
no Oceano Indico. América do Sul, América Central,
costa Rica, um encanto ainda não descoberto pelo
turismo de massa. México, talvez o país que melhor
conheça, Estados Unidso (onde cheguei a ser imigrante
por um tempo), toda a Europa, (morei na Espanha,
Itália, França e Inglaterra), Líbano, Israel, Bali
(Indonésia), Austrália, Nova Zelândia, Japão, Myamar,
Thaylandia, Filipinas (a ilha de Boracav é, sem
dúvida uma das mais bela do mundo), Malásia, Hong
Kong, Ilhas Fidji, Índia. Norte da África (Marrocos,
Tunísia, Egito) Sudeste africano: Kenia, Tanzânia,
Zanzibar. Enfim: pense num país eu lá estive. Para
me fazer entender, nestas andanças, tive que aprimorar
alguns idiomas: posso afirmar que falo e me faço
entender em inglês, francês, espanhol e italiano.
Um bom vivant que não pediu um só dólar a seus pais
(a quem agradeço tudo o que tenho na vida). O caminho
que escolhi foi com meu esforço e meu trabalho.
E se pudesse voltar atrás faria tudo o que fiz,
exatamente igual. Fico me perguntando quantas pessoas
podem dizer o mesmo.
Por derradeiro posso afirmar que nasci com o dom
de não me importar com a opinião alheia. Faço aquilo
que acho que devo fazer, tendo o cuidado de não
ultrapassar o limite dos direitos da outra pessoa.
E isso incomoda, (ao mesmo tempo, que atrai), algumas
pessoas.
Espero que você possa aproveitar algo do que escrevi.
Se não servir para nada... pena... me esforcei.
Como disse alguém: “ah se meu bom Deus me devolvesse
às horas que desperdicei na minha vida”.
Creio que não preciso pedir ao bom Deus, a quem
tenho que agradecer por ter me dado as chances e
ter me iluminado para saber aproveitá-las.
Bom proveito e meus sinceros agradecimentos por
ter visitado meu site e quem sabe meu blog ccoelho1.blog.uol.com.br
Carlos Coelho – O viajante solitário
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